São do Papa João Paulo II, de saudosa memória, as palavras acima escritas
num documento dos mais importantes para os leigos católicos, intitulado
Vocação e missão dos leigos na Igreja e no Mundo". É um assunto, portanto,
que deveria ocupar muito de nossa atenção e reflexão. Sendo este espaço
necessariamente limitado, deixo apenas alguns pontos sobre o assunto.
1. Formação: se ficarmos no sentido literal e tradicional do termo, por
formação pode-se entender "por numa fôrma". Isto é, alguém que fornece dados
informações e instruções para que um outro os assimile - como se fosse
possível colocar esse outro numa fôrma já elaborada.O processo de formação,
portanto, seria de fora para dentro lembrando dominação, imposição, normas,
leis ou obrigações. Entretanto, o sentido moderno do conceito "formação" é
muito mais abrangente. Formação é um processo que nasce no íntimo da pessoa
e não, simplesmente assimilando o que vem de fora dela. Valoriza-se, assim,
a própria pessoa e sua responsabilidade. Ninguém forma ninguém. A própria
pessoa valoriza suas capacidades interiores e exerce livremente sua
potencialidade. É dentro de si mesma , no seu íntimo, que a pessoa descobre
os seus valores, toma as suas decisões livremente: "eu me formo porque eu
quero e sinto a necessidade da formação e não porque alguém me impõe uma
obrigação".
2. Formação na fé: para nós cristãos batizados e católicos, a fé está no
centro da vida. É seu eixo, seu motor e a razão de sua existência. Embora
isso seja tão fundamental e importante, muitos católicos ficam apenas no
batismo e, quando muito, no primeiro catecismo, obrigatório para a primeira
comunhão.Se a fé é um dom de Deus, por outro lado, ele deve ser amadurecido
e melhor conscientizado durante a vida toda do cristão. A esse processo
chamamos de formação na fé. Quais são os passos para se alcançar essa
formação?
a) Aceitar a pessoa de Jesus, a sua palavra e sua proposta do Reino de Deus
é o primeiro passo para reafirmação de sua fé. Melhor, a fé é a plena
aceitação dEle. Uma aceitação que terá conseqüências na sua vida de cada dia
Uma aceitação radical. Uma opção de vida de acordo com o que Ele pede a
cada um dos batizados que querem ser seus seguidores. Mas para que isso
aconteça é necessária uma atitude de escuta e de atenção para melhor
conhecer a Jesus e para mais conscientemente responder ao seu chamado;
b) Criar e alimentar uma consciência crítica cristã, isto é, saber discernir
a realidade, os acontecimentos, as situações da vida e do mundo à luz dos
critérios do Reino de Deus. Isso quer dizer, olhar o mundo com os olhos de
Deus. Entre todos os valores que o mundo lhe apresenta, o cristão vai
descobrindo os que, de verdade, expressam o projeto de Deus e os vai
anunciando pelo testemunho de vida e pela palavra. É nessa dimensão que hoje
ao referir-se à evangelização, usa-se, também, o termo conscientização.
Pois a consciência crítica leva o cristão às raízes, às causas dos problemas
que ele enfrenta no seu dia-a dia e para cuja solução não bastam atitudes
superficiais;
c) a formação do cristão deverá levá-lo a traçar um novo projeto de vida. É
aqui que se pode perceber a urgente necessidade da formação. Todo projeto
exige atenção, dedicação, entrega sem reservas e sem limites. A formação na
fé exige tudo isso e muito mais, pois não bastam atos piedosos para seguir a
Cristo: "Nem todo aquele que me diz: 'Senhor, Senhor!', entrará no Reino dos
Céus, mas só aquele que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos
céus" (Mt 7, 21). . São necessárias, sim, atitudes radicais ao tratar-se de
fazer opções dentre todas as propostas do mundo e da cultura de hoje.
3. Formação integral: a unidade da pessoa exige integralidade na formação.
Não basta formar-se na teologia ou na catequese ou em qualquer outro aspecto
referente ao conhecimento da Igreja ou de sua fé. A formação deverá ser
integral, isto é, espiritual, doutrinal e no crescimento pessoal no campo
dos valores humanos. "Os leigos tenham também em grande conta a competência
profissional, o sentido da família, o sentido cívico e as virtudes próprias
da convivência social, como a honradez, o espírito de justiça, a sinceridade
a amabilidade, a fortaleza de ânimo, sem as quais nem sequer se pode dar
uma vida cristã autêntica". São palavras do Concílio Vaticano II sobre o
apostolado dos leigos. A esse processo dá-se o nome de formação integral.
A formação, portanto, deve ser um processo contínuo na vida do cristão. Pois
só a formação adequada e perseverante poderá conduzi-lo pelos caminhos de
uma fé madura e operante.
Pe. José Gilberto Beraldo
Assessor Eclesiástico do
Movimento de Cursilhos de Cristandade do Brasil
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